7 de abril de 2010. Aeroporto Internacional de Confins. Tudo levava a crer que aquele seria mais um dia comum; ou nem tanto afinal de contas, não é sempre que tenho o prazer (até então) de viajar de avião, especialmente para Belo Horizonte e ainda poder acumular pontos no cartão fidelidade.
Para garantir que minha volta, assim como a ida, fosse tranqüila, prontamente, 1 hora antes do embarque lá estava eu, sentada e, como sempre, rezando para que aquele fosse um vôo sem contratempos e grandes turbulências. Os minutos que antecediam aquela dura e temível hora de embarque foram – encantadoramente – curtidos por ver jovens senhores e senhoras da melhor idade em uma felicidade de fazer inveja. De lenços azuis sobre pescoço (para o caso de serem prontamente identificados), eles tiravam fotos buscando registrar cada momento antes da viagem que fariam para Rússia e que ficariam por longos trintas dias.
Ao som de toda essa gritaria e festividade os minutos passavam e eu, vagarosamente, me distraia da ideia (e medo) de enfrentar o avião. Mas, como era inevitável, chegava a hora. Ecoava - claramente - pelas caixas de som da sala de embarque o vôo TAM 3223. Os passageiros, como de costume, dirigiam-se aos seus assentos e, para minha felicidade, eu estava sozinha naquelas três poltronas. Confortava-me a ideia de chegar às 17h00 em São Paulo, livre de trânsito e pronta para curtir (pelo menos uma vez) um bom (e grande) quarto de hotel.
Exatamente às 15h45 todos os passageiros acomodados em suas poltronas ouvem, ao invés de uma voz que normalmente anunciaria as boas-vindas ao vôo TAM 3223, o Sr. Comandante tristemente dizendo que o embarque seria retardado devido a problemas com o painel de comando. Posso jurar que durante aqueles intermináveis minutos eu rezava como uma louca para que o problema não fosse resolvido e que fossemos retirados daquela aeronave. Dito e feito. Depois de mais de meia hora, estávamos nós saindo da aeronave e nos dirigindo para o ônibus.
O nada simpático moço da TAM pedia, aos gritos, que nós seguíssemos o fluxo e assim fomos nós. Um passageiro seguindo o outro passageiro, que por fim nos fez encontrar vários outros passageiros e, com isso, nos depararmos com uma aeronave, que mais pareceria um ônibus em final de tarde. Tantos eram os passageiros em pé que a aeromoça nem conseguia enxergar o final do avião e, mais uma vez aos gritos anunciavam: - Que saiam todos os passageiros que pertencem aos vôos 3223, 3225, 3218... A confusão estava armada. Alguns passageiros, gentis como eles só, saíram à francesa. Os demais nem sequer ergueram a cabeça. Conclusão! Polícia. E nessa altura do campeonato, os gentis passageiros estavam sem bilhetes de embarque.
Fomos, seguindo o comboio, direcionados ao balcão para a emissão dos novos bilhetes. Na confusão armada, só se ouviam reclamações, gritos, choros, lamentações, etc. etc. etc. Mas, surpreendemente, eis que surge a voz da paciência. – Gente, eu estou calma! Já perdi meu compromisso mesmo, não tenho pressa para ir embora. Na mesma calma e seguindo os preceitos de Dalai Lama, respondi a vaga voz da paciência. – Se a Sra. não se importa de perder o seu compromisso, outras pessoas se importam. Porque fui defender a causa alheia, afinal de contas, meu único compromisso era com o bonito e grande quarto de hotel. Na mesma hora a voz da paciência gritou para o saguão inteiro do aeroporto. – Cala a boca sua perua! Eu não sabia onde enfiar a minha cara de vergonha. Para o meu próprio espanto, não tive reação. Mal podia imaginar que o pior estava por vir. Quando a Sra. Paciência passou do meu lado, me olhou dos pés a cabeça e reforçou o seu comentário, eu não resisti e disse: - Cada um sabe o espelho que tem em casa. E daí veio: – Cala a boca senão te meto a mão na cara! Vixi, a coisa ficou feia. Tremia mais que vara verde (isso treme mesmo?). Perdi, completamente, a noção de espaço, só me lembro de ouvir uma (bela) voz: - Perua, fica aqui do meu lado senão você vai apanhar mesmo. Como o moço era do tipo dois por dois não quis nem discutir, me plantei e enraizei do seu lado.
O que era para ser trágico ficou cômico, naquele momento criou-se um time, um grupo, uma turma de aliados ou sei lá o que. Até cumprimos a cota, pois entre nós havia um deficiente. Na confusão generalizada, uma amizade. A comunhão era tão grande entre nós naquele momento, que quando fomos brigar pelo direito ao jantar, fazendo garantir as novas regras da ANAC O tripulante ao subir no banco para perguntar a todos os passageiros quantos queriam a garantia do seu direito e eu te pergunto: Quantos levantaram à mão? 4. Até que o bonitão defensor das peruas olha para mim e diz: - Perua, você vai com a gente, ergue a mão. E lá fomos nós escoltados para fora do aeroporto, direcionados à lanchonete para com apenas R$ 12,00, para fazer uma rica refeição.
Quando demos conta do horário estávamos atrasados e já anunciavam pelos alto-falantes a última chamada para vôo 3214. Foi uma correia só. Ou melhor, nem tanto. Estava com a gente um deficiente físico que depois de andarmos o corretor de embarque inteiro, diz com dor no coração: - Pessoal, esqueci meu celular no raio-X. Como companheiro é companheiro, lá fomos nós ajudar esse novo amigo. No completo desespero para não perdermos o avião, ouço um suave e choroso “psiu, psiu...”. Quem era? A Sra. Paciência. Com os olhos cheios d’água e com a expressão de arrependimento vem ela me pedir “mil” desculpas. Com o sentimento de perdão e sem saber o que falar me deparo com 4 homens marmanjos gargalhando no corredor. Eles não conseguiam acreditar no que estavam vendo. Como se não bastasse à cena melodramática e para tornar a situação mais comovente, fomos todos sentados pertos uns dos outros e os meninos pentelhos, davam conta de tornar a situação ainda mais constrangedora dizendo: – Cuidado, perua senão você apanha.
Para encerrar a noite e selar a paz, a Sra. Paciência me acompanhou até a fila do táxi e milhares de vezes me pedia desculpas. Como não desculpar se todos nós estávamos nervosos e ansiosos para chegar à terra de gigantes. O ato de perdão só me fez bem. Jamais podia imaginar que os dias que estavam por vir seriam tão bons quanto aquele dia cômico. De perua, a feia e, por fim, eficiente, encerrei a minha excursão feliz da vida. Vi como é fácil fazer amigos, renovar os amigos, brigar com os amigos e fazer as pazes com os amigos (e também perdoá-los). Você deve estar se perguntando como eu estava vestida, não é mesmo? Como uma perua chique.
Um dia atípico, porque que não tem período certo para sobreviver. Ainda bem que foi só por um dia.
Um dia atípico, porque que não tem período certo para sobreviver. Ainda bem que foi só por um dia.
