domingo, 28 de fevereiro de 2010

Tempo de Viagem

Todos os dias eu desejava essa viagem e buscava – incansavelmente – o momento que me levaria ao lugar em que os meus sonhos seriam despertados. Desejava revelar as imagens mais perfeitas da minha vida, juntamente com as pessoas que amo.
Nos dias que antecediam a viagem, eu ficava olhando atentamente os destinos; talvez por imaginá-los como uma rota de fuga, um meio de me levar para longe do medo que me assombrava. Calculava cada momento, traçava os planos, checava a temperatura e contava o tempo – que insistia em não passar.
Precisava de algum jeito trair o destino e queria de alguma forma um novo cenário para a minha vida. Pesquisava a trilha sonora que acompanharia essa viagem e os figurinos que apareceriam nas imagens e que serviriam – mesmo depois de anos – como referência desse tempo.
Desejava que esse tempo de viagem fosse – simplesmente – perfeito. Não era possível que alguma coisa de errado aconteceria, afinal de contas, o meu plano era trair o destino, de modo que ele jamais pudesse reconhecer a minha felicidade e, com isso, aprontar para cima de mim.
Repetia toda hora que não queria, mais uma vez, viver aquela experiência horrível, por isso, os meus planos eram perfeitos, uma verdadeira rota de fuga para a felicidade.
Cada risco no calendário representava um passo, um caminho em busca das mais perfeitas imagens e dos mais lindos cenários. Trazia as pessoas - atores coadjuvantes dessa história - para o set de gravação junto comigo e ensaiava com eles os passos, os movimentos, as rotas e cada roteiro que trouxesse para perto de nós, a verdadeira perfeição. Não tinha porque dar errado!
Fecho os olhos e vejo, como se fosse hoje, o brilho nos olhos dos atores iniciantes. Era possível sentir de longe o frio na barriga e o calafrio da estreia. Eu podia jurar para mim mesma que eu teria, em minhas mãos, o controle da situação. Seria superior a tudo, e todos estariam sobre a minha proteção e guarda.
Sabia que teria a direção de cada cena e captaria as melhores imagens como sonhei todos os dias. Dirigiria cada capítulo, instruindo os meus atores onde irem e o que falarem, afinal de contas, já conhecia aqueles belos caminhos.
Porém, saber de tudo não foi suficiente. O destino foi mais esperto (e mais perfeito) que os meus planos e entrou em cena. A lição trazida por ele foi me mostrar que – independente – de onde eu estivesse, se o meu objetivo fosse conquistar a felicidade, eu teria que superar os obstáculos. Não há roteiro perfeito, mesmo com ensaios. São nos improvisos que se destacam os melhores atores e saem às melhores cenas.
Nesse tempo de viagem conheci a força saiu de onde eu menos esperava e da forma mais surpreendente. O medo que me assombrava voltou - exatamente - no mesmo tempo, mas veio para me provar que não adiantava fugir, pintar a rachadura (se não arrumar o estrago, uma hora ou outra, a rachadura abre de novo).
No final de tudo, essa história ficou perfeita e as imagens que ficaram – mesmo com os obstáculos – foram as mais lindas possíveis e o calor acobertou o frio. Os atores coadjuvantes ganharam o Oscar e a atriz principal o troféu do destino, que provou – mais uma vez – que é superior a qualquer rota de fuga.
Em tempo de viagem, a maior lição tirada disso tudo foi que somos dirigidos por um único Diretor e é a ele que devemos respeitar e pedir - sempre - a suprema proteção.

Pr'a você, uma boa viagem!

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